quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Silêncio

Ele tinha perdido a lucidez. Veio me dizer com um sorriso no rosto que o sol não apareceria mais. O começo do fim do mundo enlouqueceu a população, as pessoas corriam pelas ruas escuras, matavam uns aos outros e gargalhavam. Os homens do exército atiravam sem hesitar. Não demorou muito e houve uma explosão que anulou todo e qualquer som por alguns segundos. As estrelas brilhavam enquanto a Terra ardia em radiação e a raça humana estava quase extinta. Em um telão no alto da cidade, mostrava-se aos poucos que restaram um infográfico do estado do sistema solar, completamente desalinhado. Faltavam poucas horas apenas, que demoraram a passar, mas não houve chance alguma de não serem todos engolidos pelo chão. Não foi o fim do mundo, o planeta continuava ali, silencioso e intacto. As estrelas brilhavam cada vez mais.

Endless Memory

Um senhor que exigia educação mas não a tinha. Modelo retrógado. Estranho. Era uma noite estranha. Bolhas de sabão e fogos de artifício esparsos. Cores borbulhavam e explodiam num fundo negro que lhes servia perfeitamente. A estranha sensação de que aquelas cores não eram amistosas lhe tomava. Foi quando aconteceu. Momento após momento. Explosões mais altas e cada vez mais, se aproximando. Aproximando e retumbando a terra como se o Inominável batesse nos tambores ocultos do submundo. Fugi em busca de refúgio. Um carro. Entrei no banco de trás para me deparar com velhos e novos rostos.
Estamos em quatro no banco de trás. Me dizem que é uma lembrança de anos passados. Mais tranquilo, reclino a cabeça e faço alguma força pra acordar. Acordo no mesmo carro. Agora somos três no banco de trás. Pergunto por ela. Abaixam a cabeça. Pergunto novamente. Me mostram uma criança. As lembranças percorrem minha espinha num toque congelante de tristeza."Onde ela está?" - "O cancer." Apontam para a criança. "Ela é o que vocês eram". Não ouço mais nada depois do cancer. Apenas as memórias me levando de volta no tempo, enquanto Caronte navega pelos meus olhos.