Era uma madrugada típica de inverno. Duas e meia da manhã e meus calcanhares gelados.
Tão gelado que ao pisarem no chão a dor parecia cortar os tendões.
O silêncio prevaleceria não fossem os uivos intermitentes que soavam seco de tempos em tempos.
Olho por entre as cortinas e vejo a elipse branca com um tom azulado que a envolvia.
Neste momento os uivos ficaram mais fortes. Intervalos menores.
Intervalos no mesmo ritmo que meu coração. Meu coração palpitava acompanhado pelos arrepios.
Escutava sons de arranhões na porta dos fundos juntamente com rosnados que mais
pareciam palavras em latim. O frio aumentava. Eu, paralisado. Uivos e arranhões agora estão
intensos e ainda mais fortes. Consegui mexer meus braços, e levantei.
A passos lentos e cautelosos, atravessei a sala em direção a porta dos fundos. Tudo que conseguia ver
era uma sombra por debaixo da porta. "Que diabo me aguarda atrás da porta?" Por mais que não quisesse acreditar, não era uma pessoa.
A porta começou a receber violentos trancos de arrombamento. Peguei minha peixeira com a mão direita
e com a esquerda virei a chave. Abro a maçaneta cautelosamente. Uma respirada para oxigenar o meu corpo. Em uma fração de segundo imagino como matar. Cinco ou seis opções de ataque àquela besta. A porta vai se abrindo lentamente. Atônito a faca escorre pela minha mão.
Olhei nos olhos daquele animal. Apenas meu cachorro.
"História do amigo Carlos Henrique Filho"
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Blackout
-Quando eu estava lá naquela praia foi um negócio bizarro que aconteceu.
-Mas foi durante a noite?
Descíamos conversando uma rua estreita em direção a um casebre branco e velho que se localizava no final da curva. Reboque despedaçado pela parede com aquela sensação de desmoronamento pós-temporal. A portinhola enferrujada tem a mesma segurança de uma creche. Um pequeno jardim se ergue pela fachada do muro com trevos de três folhas, boldo e algumas outras plantas indecifráveis. Bem próximo ao encontro do final do jardim com um portão, um gato nos observa calmamente.
Nos aproximamos do portão e uma leve e gelada brisa da madrugada regojiza nosso suor. Num salto o gato adentra o quintal do imóvel. Ele abre o portão que continua num pequeno corredor úmido e mofado. As paredes gotejam um líquido negro em poças de lama no solo do local. Continuamos até o fim do corredor chegando na lavanderia. Uma luz amarelada nos acomoda em suas muretinhas para logo depois sermos pegos de surpresa por um vapor.
Uma substância entorpece nossas mentes de formas cruéis. Nossa mente é tomada pelo ar espesso com uma nota adocicada como se a própria súcubo nos servisse com seu perfume. As profundezas vão colocando nossos corpos em estado vegetal enquanto caímos naquele abismo neural. Por um breve momento recupero parte de minha lucidez e olho para os lados na esperança de encontrar meu amigo. Não vejo nada. Apenas espirais de oxigênio chocam minha visão e ludibriam minha memória. Continuo caindo em direção ao chão que nunca chega. Minutos infinitos. Por um breve instante tenho a sensação de ver aquele guardião da vida eterna. "Me tira daqui, eu estou caindo." Minha voz não chega nas minhas cordas vocais. Devo perder a consciência em breve. Uma tentativa de ficar de pé e me encontrar naquela lavanderia. Me aproximo de uma pequena mesa branca com latas, caixas de pizza e sujeira pelo local. "Estou recuperando meu corpo." Ouço risadas ao fundo que mais parecem aqueles pequenos diabos correndo em minha volta e apontando seus tridentes enquanto sou sugado de volta e com força.
Uma luz.
-Já é de manhã?
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Racional
Aquela cerveja estava bem gelada. Aquela noite estava gelada. Uma estranha neblina amaldiçoava as desertas ruas. A qualquer momento. Poderia ser aqui ou ali. Na próxima esquina.
Caminhava em meio a este fenômeno macabro da natureza. Estava estranhamente sereno. A rua larga se erguia em minha frente num risco de asfalto sem horizonte. Continuei a descer as ruas enquanto os postes oscilavam suas cores brancas e amarelas. Tudo estava vazio. Aquele cachorro na casa amarela quebrava o silêncio com seus latidos roucos e pausados. Nada de uivos de lobos.
A rua apresenta agora uma descida. Déjà vu. Aquela estranha sensação de já ter visto aquela cena me acomete. Sei o que é. Um erro. Um bug cerebral. Uma falha neural me afetando e me fazendo crer que já vi aquilo em algum lugar. Um sonho? Pode ser. Mas não acredito nisso. Ceticismo é meu lema. Um motoqueiro passa do outro lado da avenida em direção ao fim da descida. Déjà vu novamente. Tento manter a razão. "Aquela moto vai voltar." E ela volta. Tenho certeza que é só o medo me fazendo crer que já vi aquilo. A moto passa por mim. "Agora ela vai passar descendo de novo. Agora que estou a duas quadras de meu destino." A moto passa novamente e entra em minha frente. Pede ajuda de forma seca. "Onde fica a lanchonete?" Explico a ele que fica a dois quarteirões a direita dali. Estou a um quarteirão de casa e assustado. "Ele pode atirar em mim. Tenho certeza disso. Ele vai voltar novamente."Ele não entra onde expliquei e faz meia volta em minha direção. "Eu não vou querer provar que sou cético. Não agora." Tranco a porta.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Velvet
Ele me disse o seu nome, e era Bob. Eu já sabia. Eu te amo, Bob. Desde que eu apareci sob as luzes que você me olha com esses olhos tortos. E eu fiz o meu show só pra você, meu amor. Bob, seu eterno fracassado. Como você veio parar em um lugar como esse? E olha só você, de gravata tentando me enganar com esse copo cheio de uísque, não vê que o gelo já derreteu? Eu sussurrei o meu nome mas você não escutou. Uma pena, pois me reconheceria. Você me chamou, Bob, eu ouvi de longe. Por que você não pede mais uma dose, meu amor? Bob acendeu um cigarro e me contou da saudade que tinha da família, mas disse que os negócios iam muito bem. Depois ele chorou. Pobre Bob, toma meu ombro. Toma mais uma dose. "Vamos para a minha casa?", ele pediu. Claro, meu bem, me leva até para o nono círculo do inferno que eu vou com você. E ele tirou o meu vestido de veludo e beijou a minha carne com delicadeza. Eu te amo tanto que você não pode mais viver, porque eu preciso de você, Bob. E eu cravei as minhas garras nos seus olhos mal feitos. Minhas asas finalmente se abriram e os seus lençóis arderam em fogo e sangue. Eu beijei os seus olhos perfurados. Você me fez viver novamente, Bob. Eu te amo. Tirei os meus sapatos de solas vermelhas e caminhei pela casa na ponta dos pés. Virei todos os crucifixos de cabeça para baixo e saí pela porta.
Boa noite, meu amor, você me chamou e aqui eu estou. Eu sou a Estrela da Manhã.
Boa noite, meu amor, você me chamou e aqui eu estou. Eu sou a Estrela da Manhã.
Surrealismo
O olho pulou para fora da cavidade e rolou pelo chão. A mão esverdeada de dedos magros apanhou o globo de vidro negro de volta. O barulho do encaixe é quase eletrônico, mas clássico. Uma gota de líquido branco escorreu do lacrimal até a ponta do queixo pontudo. Limpou o canto da boca com a língua bifurcada, rapidamente. Três aranhas passeavam pelo seu crânio, coberto por alguns fios de cabelo prateado. Um pequeno verme se debatia tentando sair de um furo úmido de sangue localizado em sua nuca.
Suspenso por um fio de prata, o pêndulo balançava lentamente. Pra direita, pra esquerda, pra direita...
A beleza em sua real simplicidade. Eu poderia pintar um quadro.
Suspenso por um fio de prata, o pêndulo balançava lentamente. Pra direita, pra esquerda, pra direita...
A beleza em sua real simplicidade. Eu poderia pintar um quadro.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Cantiga
Abro os olhos.
Escuro. Estou deitada em minha cama. Uma luz vem do cômodo ao lado, separado do meu quarto por um corredor, que também leva ao banheiro na outra ponta.
Tenho 10 anos de idade.
Sim, é a minha casa, mas tudo parece um pouco estranho. Levanto-me e vou conferir a luz, que parece vim da televisão na sala. Chego ao corredor, alguém está vindo.
Então aparece uma garotinha da minha altura vestida com camisola branca. O cabelo é loiro, cheio e na altura dos ombros, e está escondendo seu rosto. Não consigo vê-la. Não tenho muito tempo para pensar, ela segura no meu punho e me puxa pelo corredor, em direção ao banheiro. "Vem, vem comigo." Estou com medo, não quero seguí-la mas meus pés se movem atrás dela. O corredor é escuro e pouco iluminado pelo que parece ser a televisão, ainda não consigo ver seu rosto. "Quero te mostrar uma coisa, vem."
Não consigo lutar, apenas continuo. Me leve, eu aceito.
Ela entra no banheiro e eu também, ela está de costas para mim. Estou aqui, me mostre. E então ela se vira e vem até mim, agora vejo bem o seu rosto. E nunca mais vou esquecê-lo. Não era um rosto de criança. Não era humano. Ela canta, enquanto caminha até mim com os braços esticados. Ah, a voz... Também me lembro bem.
Fecho os olhos.
Escuro. Estou deitada em minha cama. Uma luz vem do cômodo ao lado, separado do meu quarto por um corredor, que também leva ao banheiro na outra ponta.
Tenho 10 anos de idade.
Sim, é a minha casa, mas tudo parece um pouco estranho. Levanto-me e vou conferir a luz, que parece vim da televisão na sala. Chego ao corredor, alguém está vindo.
Então aparece uma garotinha da minha altura vestida com camisola branca. O cabelo é loiro, cheio e na altura dos ombros, e está escondendo seu rosto. Não consigo vê-la. Não tenho muito tempo para pensar, ela segura no meu punho e me puxa pelo corredor, em direção ao banheiro. "Vem, vem comigo." Estou com medo, não quero seguí-la mas meus pés se movem atrás dela. O corredor é escuro e pouco iluminado pelo que parece ser a televisão, ainda não consigo ver seu rosto. "Quero te mostrar uma coisa, vem."
Não consigo lutar, apenas continuo. Me leve, eu aceito.
Ela entra no banheiro e eu também, ela está de costas para mim. Estou aqui, me mostre. E então ela se vira e vem até mim, agora vejo bem o seu rosto. E nunca mais vou esquecê-lo. Não era um rosto de criança. Não era humano. Ela canta, enquanto caminha até mim com os braços esticados. Ah, a voz... Também me lembro bem.
Fecho os olhos.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Confiança
O quarto está iluminado com lampadas amarelas. Quatro pessoas estão lá dentro. Três garotos e uma garota. Envoltos em uma névoa de fumaça que deixa o ambiente mais aconchegante. Uma aparência de neblina cria aquele espaço.
É uma pequena casa. É possível enxergar o portão da frente. A porta da sala e do quarto formam uma estranha diagonal com o quarto. Um calafrio puxa dois dos garotos. A garota dá um trago em seu incenso expondo sua total distração. As luzes aparentam estar mais fracas. Talvez seja aquela névoa do cigarro. Tudo está muito confuso.
Os dois se entreolham e como uma peça teatral pulam de seus lugares. A estranha sensação lhes acomete novamente. Olham para o portão da casa. Nada. Um pequeno desvio de olhar. A sensação novamente. Um vulto? Os dois se dirigem para a sala. Vigiam a porta e janela. Tudo quieto. A adrenalina aumenta. Uma inspiração das trevas existe naquele local. Um segue pelo lado de fora cautelosamente. Pelo lado de dentro o outro tem mais ímpeto. A parte de dentro parece ser uma fortaleza mais segura. Abre a cozinha. Precisa se juntar ao colega. Se encontram na garagem. Escura. Tudo vazio. Olham-se. Um pequeno banheiro no fundo da garagem com a porta encostada. Um corredor de escuridão espelha a porta terminando em uma despensa de madeira com sua portinhola presa por uma dobradiça. A visão de que algo grande saiu daquele pequeno armazém de entulho e escorpiões passa rapidamente pela cabeça. Concentram-se. Pode estar no banheiro. Seus corações palpitam. Quem abrirá a porta? Um deles olha rapidamente. Branco.
É uma pequena casa. É possível enxergar o portão da frente. A porta da sala e do quarto formam uma estranha diagonal com o quarto. Um calafrio puxa dois dos garotos. A garota dá um trago em seu incenso expondo sua total distração. As luzes aparentam estar mais fracas. Talvez seja aquela névoa do cigarro. Tudo está muito confuso.
Os dois se entreolham e como uma peça teatral pulam de seus lugares. A estranha sensação lhes acomete novamente. Olham para o portão da casa. Nada. Um pequeno desvio de olhar. A sensação novamente. Um vulto? Os dois se dirigem para a sala. Vigiam a porta e janela. Tudo quieto. A adrenalina aumenta. Uma inspiração das trevas existe naquele local. Um segue pelo lado de fora cautelosamente. Pelo lado de dentro o outro tem mais ímpeto. A parte de dentro parece ser uma fortaleza mais segura. Abre a cozinha. Precisa se juntar ao colega. Se encontram na garagem. Escura. Tudo vazio. Olham-se. Um pequeno banheiro no fundo da garagem com a porta encostada. Um corredor de escuridão espelha a porta terminando em uma despensa de madeira com sua portinhola presa por uma dobradiça. A visão de que algo grande saiu daquele pequeno armazém de entulho e escorpiões passa rapidamente pela cabeça. Concentram-se. Pode estar no banheiro. Seus corações palpitam. Quem abrirá a porta? Um deles olha rapidamente. Branco.
"O que tem lá?"
"Alguma coisa agachada no fundo."
"Alguma coisa agachada no fundo."
"Nossa imaginação?"
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Ballet
Passaram-se três dias. Três meses, três anos, não sei dizer. Só sei que preciso correr. Os passos são pesados, o vento quer me levar para a direção contrária. Por que estou correndo? Bailarinas com fitas pretas rodopiam no asfalto, ao redor dos elefantes. Eu queria poder dançar assim. Mas preciso correr. Não sei mais onde estou, mas sei que é por ali. Tenha força nessas pernas, enfrente o vento e caos, chegue rápido. Não desista agora. Você não pode. A culpa é sua.
Entro no quartinho escuro e o berço está ali, intacto. Me aproximo devagar, não quero ver o inevitável. Um pequeno cadáver. Há três dias, três meses, três anos, não sei. Mas não é o meu bebê.
Não pode ser.
Entro no quartinho escuro e o berço está ali, intacto. Me aproximo devagar, não quero ver o inevitável. Um pequeno cadáver. Há três dias, três meses, três anos, não sei. Mas não é o meu bebê.
Não pode ser.
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Transparência
Corro pelas árvores fugindo de algo estranhamente desumano. Uma velha cabana se ergue em minha frente. A chave por algum motivo diabólico se encontra na fechadura. Adentro os aposentos e tranco. Num impulso engulo a pequena chave. Talvez na tentativa de ficar mais tranquilo.
A fumaça escorre pelas frestas da veneziana. Um sopro de morte pálido e gélido vaporiza o ambiente antigo. Uma mesinha de madeira ao lado da cama. Um quarto. Vazio como uma casca de cigarra. Um som amadeirado estala pela porta a frente. Apenas os móveis se ajeitando para uma melhor posição. O acesso à esquerda revela uma nova perspectiva. Um gigantesco cômodo rosa. Salpicados como dentes de leão em meio à ervas daninhas estão a penteadeira e, um chuveiro?Aquela fumaça torna-se mais intensa. Uma janela redonda sem entrada de ar ao fundo. O chuveiro goteja escuridão para o ralo. Sinto que estou mais fraco. O líquido tem cheiro de órgãos frescos. Com dificuldade me aproximo do chuveiro cada vez mais. Minha pele está transparente. Aquela ducha escorre mais e mais. Quando estou muito próximo daquele ralo de horrores, uma grande quantidade despenca do chuveiro. Não possuo mais forças. Um som metálico estala no chão. Levanto os olhos e enfio o braço naquele putrefação. A chave da casa?
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