Aquela cerveja estava bem gelada. Aquela noite estava gelada. Uma estranha neblina amaldiçoava as desertas ruas. A qualquer momento. Poderia ser aqui ou ali. Na próxima esquina.
Caminhava em meio a este fenômeno macabro da natureza. Estava estranhamente sereno. A rua larga se erguia em minha frente num risco de asfalto sem horizonte. Continuei a descer as ruas enquanto os postes oscilavam suas cores brancas e amarelas. Tudo estava vazio. Aquele cachorro na casa amarela quebrava o silêncio com seus latidos roucos e pausados. Nada de uivos de lobos.
A rua apresenta agora uma descida. Déjà vu. Aquela estranha sensação de já ter visto aquela cena me acomete. Sei o que é. Um erro. Um bug cerebral. Uma falha neural me afetando e me fazendo crer que já vi aquilo em algum lugar. Um sonho? Pode ser. Mas não acredito nisso. Ceticismo é meu lema. Um motoqueiro passa do outro lado da avenida em direção ao fim da descida. Déjà vu novamente. Tento manter a razão. "Aquela moto vai voltar." E ela volta. Tenho certeza que é só o medo me fazendo crer que já vi aquilo. A moto passa por mim. "Agora ela vai passar descendo de novo. Agora que estou a duas quadras de meu destino." A moto passa novamente e entra em minha frente. Pede ajuda de forma seca. "Onde fica a lanchonete?" Explico a ele que fica a dois quarteirões a direita dali. Estou a um quarteirão de casa e assustado. "Ele pode atirar em mim. Tenho certeza disso. Ele vai voltar novamente."Ele não entra onde expliquei e faz meia volta em minha direção. "Eu não vou querer provar que sou cético. Não agora." Tranco a porta.
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