quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Blackout

-Quando eu estava lá naquela praia foi um negócio bizarro que aconteceu.
-Mas foi durante a noite?

Descíamos conversando uma rua estreita em direção a um casebre branco e velho que se localizava no final da curva. Reboque despedaçado pela parede com aquela sensação de desmoronamento pós-temporal. A portinhola enferrujada tem a mesma segurança de uma creche. Um pequeno jardim se ergue pela fachada do muro com trevos de três folhas, boldo e algumas outras plantas indecifráveis. Bem próximo ao encontro do final do jardim com um portão, um gato nos observa calmamente.
Nos aproximamos do portão e uma leve e gelada brisa da madrugada regojiza nosso suor. Num salto o gato adentra o quintal do imóvel. Ele abre o portão que continua num pequeno corredor úmido e mofado. As paredes gotejam um líquido negro em poças de lama no solo do local. Continuamos até o fim do corredor chegando na lavanderia. Uma luz amarelada nos acomoda em suas muretinhas para logo depois sermos pegos de surpresa por um vapor.
Uma substância entorpece nossas mentes de formas cruéis. Nossa mente é tomada pelo ar espesso com uma nota adocicada como se a própria súcubo nos servisse com seu perfume. As profundezas vão colocando nossos corpos em estado vegetal enquanto caímos naquele abismo neural. Por um breve momento recupero parte de minha lucidez e olho para os lados na esperança de encontrar meu amigo. Não vejo nada. Apenas espirais de oxigênio chocam minha visão e ludibriam minha memória. Continuo caindo em direção ao chão que nunca chega. Minutos infinitos. Por um breve instante tenho a sensação de ver aquele guardião da vida eterna. "Me tira daqui, eu estou caindo." Minha voz não chega nas minhas cordas vocais. Devo perder a consciência em breve. Uma tentativa de ficar de pé e me encontrar naquela lavanderia. Me aproximo de uma pequena mesa branca com latas, caixas de pizza e sujeira pelo local. "Estou recuperando meu corpo." Ouço risadas ao fundo que mais parecem aqueles pequenos diabos correndo em minha volta e apontando seus tridentes enquanto sou sugado de volta e com força.
Uma luz.

-Já é de manhã?

Nenhum comentário: